
Curadoria sem contexto é só uma lista
Foi nos museus que a palavra “curadoria” ganhou o sentido que a gente usa hoje. O curador decide quais obras entram na exposição e, mais importante, como elas conversam entre si.
Uma obra boa na parede errada perde força. A mesma obra, no lugar certo, ganha um sentido que não tinha sozinha. Essa segunda parte é a que quase ninguém faz.
Semana passada a gente fez o evento de lançamento do Private Residence, e cada decisão do evento passou por isso.
A escolha do local poderia ter sido pelo hype. Mas escolhemos a Casa Wooding, e quem estava lá sentiu, por algumas horas, como é morar numa casa com arquitetura da Triptyque, que assina nosso condomínio.
O vinho foi um belo Bourgogne, e não um DV Catena. Quem aprecia tinto merece mais do que o caminho fácil. Para a música, jazz ao vivo, porque relaxa, é sofisticado e não atrapalha a conversa. A lista de convidados foi feita nome por nome.
Nenhuma escolha era a mais cara nem a mais famosa. Eram as que dialogavam entre si. E não é fácil fazer isso.
Olha para a seleção brasileira. Onze jogadores que são os melhores dos seus clubes, mas que não conseguem dar certo como grupo. Porque só juntar coisas boas não basta. Se você não encaixa a coisa certa no lugar certo, ela não funciona.
É isso que este jornal faz. Qualquer lista pode te mostrar o que existe. Mas queremos te mostrar o que vale, o porquê e com o que combina, dentro de lugares e experiências que você já conhece ou que estava esperando o sinal certo pra conhecer.
Espero que você curta a curadoria de hoje,
Diego Custódio
Na edição de hoje:
— Depois do Paddock, até o camarote perde o brilho
— O melhor rigatoni alla vodka do Brasil?
— O relógio mais caro da história da Cartier funciona a pilha
— A nova primeira classe da Air France vai chegar ao Brasil
— O museu de US$ 1 bi do criador do Star Wars



Depois do Paddock, até o camarote perde o brilho
O GP de São Paulo é de 6 a 8 de novembro, e a Audi estreia em Interlagos com um brasileiro no volante. Existe um lugar dentro do autódromo que muda o jeito de assistir a uma corrida para sempre.

Foto: Fórmula 1 | Reprodução
Interlagos tem arquibancada, tem camarote e tem o Paddock Club. Fica em cima das garagens das equipes, na reta principal, e é operado pela própria Fórmula 1, não pelo autódromo. Foi criado em 1984 e roda com o mesmo padrão nas 24 etapas do calendário.
Isso muda tudo. Quem te serve é gringo. O chef é gringo. Você está em São Paulo e só escuta inglês.
Dali você vê o grid se formar, o pit stop de treino, o pódio. Duas vezes por dia o portão abre e você desce ao pit lane para ver os mecânicos preparando o carro a dois metros de distância. Entre uma sessão e outra, champagne, open bar e menu de chef. Piloto passa. Chefe de equipe passa.
Quem vai ao Paddock uma vez e depois vai de camarote fica com um FOMO enorme. Porque está todo mundo lá, e porque é um nível de experiência que o Brasil raramente entrega. Depois disso, você não quer menos.
Da onde vem a paixão dos brasileiros pela F1?
Muita gente se apaixonou pela Fórmula 1 por causa do Senna. Mas a paixão do brasileiro pelo esporte vem de antes, de 1970, quando Emerson Fittipaldi venceu o GP dos Estados Unidos, meses depois do tri da Copa.
Dois anos depois ele era o campeão mais jovem da história, e um país inteiro descobriu que também dava para vencer sobre quatro rodas. Foi quem abriu as portas da F1 para o Brasil. Senna chegou uma década mais tarde e levou essa paixão para outro nível.
O esporte ajuda. Poucos produtos são tão sexy quanto um carro de F1: o desenho, o barulho, a tecnologia que depois chega ao carro que você dirige.
E este ano tem um motivo a mais para ir. Gabriel Bortoleto corre em casa pela Audi, que estreou na F1 nesta temporada. Ele segue sendo o único brasileiro titular no grid desde a saída de Felipe Massa, em 2017.
Beba a champagne do Paddock e a gente cuida do caminho
Interlagos fica a 25 km do centro, e o fim de semana do GP é o trânsito mais pesado do ano na zona sul. Quem vai de carro passa a tarde sem beber, e no fim ainda encara a van do estacionamento até achar onde deixou o carro. A Blend garante o acesso ao Paddock Club, o blindado na sua porta e o motorista (ou piloto do helicóptero) esperando na saída.


O melhor rigatoni alla vodka que você vai comer no Brasil
O Marena Cucina abriu no início de 2025 e entrou no Guia Michelin cinco meses depois. Para a gente, tem um prato que explica o porquê.

Foto: Michelin Guide | Reprodução
O rigatoni alla vodka é um prato com origem disputada. Tem quem diga que nasceu no restaurante Dante, em Bolonha, nos anos 1970, e tem quem jure que foi no Orsini's, em Nova York.
O que ninguém discute é que foi nos Estados Unidos que ele virou febre. Hoje é o segundo macarrão mais pedido do país, e a versão apimentada do Carbone, o ítalo-americano mais disputado de Manhattan, é o prato mais vendido da casa.
A versão do Marena Cucina segue essa escola: molho picante e 'nduja, o salame cremoso da Calábria. Na nossa avaliação, é o melhor que você vai comer no Brasil. Saboroso na medida, equilibrado, sem o excesso de creme que costuma afogar o prato por aí.
Quem está por trás
O Marena nasceu da união de Mário Martins da Costa Jr., 17 anos na liderança da Ofner, com o restaurateur Samuel Rodrigues, que passou por Fasano, Nino e Piccini. Na cozinha, o chef Denis Orsi, ex-Modern Mamma Osteria, que fez imersão na Puglia antes de desenhar o cardápio.
A regra da casa é "tutto fresco, fatto in casa", e as burratas são a prova: 80 a 90 unidades por dia, todas feitas ali.
O endereço é um casarão de dois andares no Itaim onde morou Cacilda Becker, e cinco meses depois de abrir o restaurante já estava recomendado pelo Guia Michelin.
O único pênalti
A adega tem 700 garrafas e 140 rótulos. Na nossa curadoria, é onde a casa fica devendo. As seleções não são as melhores na relação produto e custo, principalmente para um cardápio desse nível. Em compensação, a carta de drinks é incrível. Mas a principal motivação que faz valer sair de casa é o rigatoni alla vodka.
Essa semana vamos conhecer o Tuju, um dos dois únicos restaurantes de SP com três estrelas Michelin, e voltamos aqui para te contar se vale a pena ou se é só o hype.
Sua mesa no Marena, sem espera
A Blend garante a reserva no horário que você quiser e cuida da chegada e da saída com a segurança de sempre.


O relógio mais caro da história da Cartier funciona a pilha
Um Cartier Cheich único em ouro branco saiu por US$ 3,4 milhões em Hong Kong. O movimento é a quartzo, o mostrador não tem complicação nenhuma, e a explicação do preço está na história do rali Paris-Dakar.

Imagem: Sotheby's | Divulgação
Em 18 de setembro, um Cartier Cheich em ouro branco foi arrematado por cerca de US$ 3,4 milhões na Sotheby's de Hong Kong. Nove minutos de disputa, lances presenciais, por telefone e online. Virou o Cartier de pulso mais caro já vendido em leilão e, de quebra, o relógio a quartzo mais caro da história.
Não tem tourbillon, calendário perpétuo ou cronógrafo. Tem 38 mm, movimento a pilha e uma caixa com formato de cabeça envolta num turbante. Cheich, em francês, é o lenço dos tuaregues, povo nômade do Saara. O que se pagou ali foi história e escassez, não a engenharia da peça.
A história
Em 1983, a Cartier lançou um desafio dentro do Paris-Dakar: quem vencesse o rali duas vezes seguidas ganharia um relógio feito só para isso. O belga Gaston Rahier venceu em 1984 e 1985 de moto, pela BMW, e levou o Cheich.
Só quatro foram feitos em ouro amarelo, e dois seguem nos arquivos da Cartier. O de Rahier ficou quase 40 anos com a família e foi vendido em 2022 por US$ 1,1 milhão.
O de ouro branco é o quinto, e nunca viu o deserto. Foi encomendado em 2010 por Giorgio Seragnoli, herdeiro de uma dinastia italiana de embalagens que chegou a ter a maior coleção de Cartier do mundo, comprou um time de basquete e uma fatia da Ducati, e no fim gastou até a própria fortuna. A coleção se dispersou. O Cheich reapareceu agora.
Será que vale tudo isso?
É aquela coisa: se pagaram, vale. Mas até quanto? A Sotheby's estimou entre US$ 1 e 5 milhões, uma faixa tão larga que mostra que talvez nem eles saibam o valor.
O mercado respondeu no meio dessa faixa: o triplo do Cheich original, que tem a história de verdade, e US$ 1,4 milhão acima do London Crash de 1990, que era o recorde da marca desde maio. Foi a terceira vez em cinco meses que um Cartier bateu o próprio recorde.
Esses números mostram que o desenho e a raridade importam mais do que o que acontece dentro da caixa. O preço chega ao que alguém está disposto a pagar para ser o único.


Num Boeing de 300 lugares, a Air France reservou quatro para voar assim
A nova La Première tem só quatro suítes por avião, cada uma com poltrona e cama separadas. Depois de Nova York, Tóquio e Singapura, chega a São Paulo até o fim do ano.

Imagem: Air France | Divulgação
Num Boeing 777-300ER cabem mais de 300 pessoas. Na nova primeira classe da Air France, cabem quatro. Uma fileira só, na frente do avião, cada suíte com quase 3,5 m² e cinco janelas para quem fica na lateral.
A cabine estreou em 2025 na rota Paris-Nova York e desde então vem sendo instalada avião por avião. Guarulhos é uma das últimas paradas da reforma, prevista para o fim deste ano.
Na América do Sul, é a única rota com primeira classe da companhia. O trecho é noturno. Dificilmente você terá uma noite de sono melhor que essa em um avião.
A suíte tem dois móveis separados: a poltrona e, de frente para ela, uma espreguiçadeira para esticar as pernas. Na hora de dormir, a espreguiçadeira vira uma cama de dois metros. Tem dois monitores 4K de 32 polegadas, um para cada posição.
A privacidade vem de uma cortina grossa do chão ao teto, não de porta. Enquanto Emirates e Singapore fecharam as suítes com paredes, a Air France manteve o tecido para não virar cabine fechada. Sem bagageiro no teto, a cabine parece um quarto. Esse vídeo mostra como é por dentro.
Tudo tem assinatura
A curadoria é francesa de ponta a ponta. O pijama é do Jacquemus, o kit de skincare é da Sisley, o fone é Denon. No lounge do aeroporto Paris-Charles de Gaulle, o menu é do Alain Ducasse, com spa da Sisley e três suítes privativas com cama de casal e pátio. O passageiro da La Première entra por um saguão próprio, passa pela segurança acompanhado e vai de carro até o avião.
O que explica o movimento
Enquanto várias companhias cortaram ou reduziram a primeira classe, a Air France investiu. Segundo a CEO Anne Rigail, as viagens de lazer cresceram 24% em dez anos, com uma alta recente na procura por experiências de luxo.
Gente viajando por conta própria, e não pela empresa, é quem está comprando primeira classe. E deu resultado: a companhia acaba de anunciar alta de 11% na receita das cabines premium em 2026.
De Guarulhos a Paris sem filas
A Blend cuida da passagem, do trajeto até o Terminal BTG e do que vem depois de Paris-Charles de Gaulle. Você só escolhe a data.


George Lucas gastou US$ 1 bilhão para provar que quadrinho é arte
O Lucas Museum of Narrative Art abriu em Los Angeles depois de 17 anos de planejamento. Frida Kahlo, Norman Rockwell, gibis e a maquete da Estrela da Morte dividem 35 galerias.

Foto: Los Angeles Times | Reprodução
Em 2012, George Lucas, o criador de Star Wars, vendeu a Lucasfilm para a Disney por US$ 4 bilhões. Uma parte considerável desse dinheiro virou um museu.
O Lucas Museum of Narrative Art abriu ao público em 22 de setembro, no Exposition Park de Los Angeles, com ingressos esgotados no primeiro dia. Foram 17 anos entre a ideia e a porta aberta, e o projeto chegou a ser rejeitado por São Francisco e Chicago antes de Los Angeles aceitar.
O prédio
Desenhado pelo chinês Ma Yansong, do escritório MAD, o edifício de 28 mil m² parece uma nave pousada sobre o parque. Não tem uma aresta reta, e a estrutura se apoia em poucos pontos para dar a impressão de flutuar.
Dentro, são 35 galerias, dois cinemas, biblioteca de pesquisa gratuita e o restaurante Skywalker Grill. Em volta, um parque de 4,5 hectares de área verde nova para o sul da cidade.
A tese
O nome diz "arte narrativa", e a definição é a arte de contar histórias com imagens. É a coleção que Lucas montou por 50 anos: mais de 40 mil obras, de pintura de caverna a ilustração de livro infantil, passando por Norman Rockwell, Frida Kahlo, quadrinhos de Jack Kirby e R. Crumb e o mural de 800 metros de Judy Baca.
Tudo isso lado a lado, com o mesmo peso. Mellody Hobson, cofundadora e mulher de Lucas, chama de "a arte do povo".
E sim, tem Star Wars. O Lucas Archive guarda figurinos, maquetes, objetos de cena e arte conceitual da carreira inteira dele.
Por que entrar na rota
Los Angeles já tinha o Getty, o LACMA e o Academy Museum. O Lucas entra como o único que trata cinema, quadrinho e pintura como a mesma coisa. O que vale a visita é sair de lá com a sensação de que a régua do que é arte foi mexida por alguém que podia pagar para mexer.
Los Angeles na sua próxima viagem?
A Blend monta o roteiro completo, do Terminal BTG à reserva no Skywalker Grill.


As últimas novidades do canal da Private
O primeiro vídeo é o grande destaque da semana, e mostra mostra como fizemos a curadoria funcionar.

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